De cara com a fera, Paulo de Tarso

UM DEUS DE COSTAS

Corri atrás da tua face, ó Deus, nos piores dias da minha vida. Tu me deste as costas. Não tive sequer forças para protestar a realidade diante dos meus olhos. O Senhor se distanciava silencioso enquanto eu apertava o passo, como não querendo acreditar que Deus poderia dar as costas a quem lhe suplicava ajuda. Mas o Senhor seguia seu caminhar.

Mas o Senhor seguia seu caminhar.

Resolvi segui-lo assim mesmo. Talvez por desespero ou raiva. Mas onde iria o Deus que dá as costas ao homem? Fugir da sua própria criação?

Na caminhada, alguns alimentavam minha dor do medo e do abandono com pedras de condenação; outros aliviaram minha fadiga com águas que refrigeravam minh’alma e com o pão suave da palavra amiga. Vi a pobreza na opulência religiosa e riqueza imensurável na fé e bondade de pessoas tão simples.

Agora a riqueza era material e a pobreza era humana

Foram dias horríveis, meu Deus! Achei que jamais passariam. Mas passaram. Parei de seguir o Deus de costas. Afinal, rápido ou devagar, eu nunca o alcançaria, pensei comigo mesmo. Dei as costas ao Deus de costas, e no caminho de volta, os que me apedrejaram, aplaudiam, os que me serviram, choravam. Agora a riqueza era material e a pobreza era humana. O caminho que trilhei com tamanha dor, me parecia agora fácil e prazeroso. Até que a noite caiu novamente.

Não me dera conta que, à medida que eu caminhava atrás do Deus de costas, se dissipava lentamente a duradoura escuridão; que eu estava seguro seguindo o Deus de costas que eu julgava indiferente; que o meu coração aprendia e se fortalecia; que as humilhações tinham peso de glória e a minha vida tinha direção. Me desesperei. Jamais conseguiria suportar novamente aqueles dias maus, aquela estrada fria e escura. Meu Deus, misericórdia!

Meu choro agora não era de desespero ou raiva

Quando olhei para trás novamente, o Deus de costas estava lá, bem próximo a mim. Me aproximei dele e ele continuou de costas para mim no seu caminhar para me guiar novamente para fora daquelas trevas assustadoras. Meu choro agora não era de desespero ou raiva, mas de alívio, esperança e alegria. Ele era o Caminho, a verdade e a vida, e me lembrava que hoje eu só poderia vê-lo em parte, mas que um dia, quando findasse a caminhada, eu o veria face a face.

Envergonhado, lembrei que a vida inteira fiz Deus me seguir nos piores lugares, indiferente a Ele e de costas para Ele. Eu seguindo errante em tantas direções longe d’Ele, o legítimo caminho do qual me distanciava, e ele, pacientemente, veio me dar suas costas para eu segui-lo. E tudo o que eu via era um Deus de costas. As costas que carregaram a miséria humana para nos dar a paz. Miserável homem que sou!
Escrito pelo genial

Paulo de Tarso.

Formado em História e Teologia, Comunicador, Radialista.
Psicanalista clínico (atende na Clínica Médica Corpore)

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